Essa semana li uma matéria publicada no JAMA que me chamou atenção. Um estudo com quase 40 mil estudantes mostrou que mais de 1 em cada 5 crianças e adolescentes relatou usar inteligência artificial para buscar apoio emocional ou conselhos.
E não foi esse o dado que mais me preocupou.
Entre aqueles que usavam IA dessa forma, 58% apresentavam problemas emocionais em nível clinicamente relevante. Entre os que não usavam para apoio emocional, esse percentual era de 29%.
Isso não quer dizer que usar IA esteja deixando essas crianças adoecidas. O estudo não permite fazer essa afirmação. Pode ser justamente o contrário: crianças e adolescentes que estão sofrendo mais podem estar procurando a IA como um lugar para falar sobre aquilo que não conseguem falar com outras pessoas.
E acho que é aqui que precisamos prestar atenção.
No Brasil, essa preocupação já virou uma Nota Técnica
Recentemente, o Ministério da Justiça e Segurança Pública publicou a Nota Técnica nº 47/2026, especificamente sobre os riscos da exposição de crianças e adolescentes aos chamados AI Companions.
E o que são esses AI Companions?
Não estamos falando simplesmente de uma criança perguntar para uma IA ou pedir ajuda para fazer um trabalho da escola.
Estamos falando de sistemas capazes de manter conversas ao longo do tempo, lembrar do que aquela pessoa contou, adaptar as respostas ao usuário e simular características que nós reconhecemos em uma relação humana, como empatia, preocupação, amizade e afeto.
Para um adolescente que está sozinho, sofrendo ou que tem dificuldade de conversar com outras pessoas, é fácil entender por que isso pode ser tão atraente.
A IA está disponível de madrugada. Ela responde na hora. Você não precisa olhar para ninguém. Não precisa ter vergonha de contar alguma coisa. Não precisa lidar com a possibilidade de o outro estar ocupado, discordar de você ou não responder da forma como você gostaria.
E exatamente por isso precisamos olhar para esse uso.
O que já está sendo observado?
A Nota Técnica brasileira reúne estudos que vêm apontando riscos relacionados a apego intenso, uso compulsivo, substituição de vínculos humanos, exposição a conteúdos inadequados e compartilhamento de informações íntimas.
Também aparecem relatos de privação de sono, piora do desempenho escolar, abandono de atividades e afastamento das relações presenciais.
Um dado citado no documento me chamou especialmente a atenção: entre 758 adolescentes que utilizavam AI Companions, 33% disseram já ter escolhido conversar com a IA, em vez de conversar com uma pessoa, sobre alguma coisa importante. E 24% disseram ter compartilhado informações pessoais ou privadas com esses sistemas.
O que mais me preocupa não é a criança conversar com uma IA
Eu uso inteligência artificial. Provavelmente você também usa. E nossas crianças vão usar cada vez mais.
Então não acho que a discussão deva ser “IA é boa ou ruim?” ou “precisamos proibir?”.
O que me interessa é qual lugar ela começa a ocupar na vida daquela criança.
Uma coisa é pedir ajuda para organizar uma ideia.
Outra é procurar a IA toda vez que está triste.
Uma coisa é perguntar sobre um problema.
Outra é construir uma relação em que aquele sistema passa a ser o lugar onde você se sente mais compreendido, mais acolhido ou menos julgado.
E isso é especialmente importante quando estamos falando de crianças e adolescentes que já estão sofrendo.
O estudo publicado no JAMA aponta justamente nessa direção: aqueles que recorrem à IA para apoio emocional parecem ser um grupo com maior sofrimento emocional.
Referências
Schweitzer K. More Than 1 in 5 Children Report Using AI for Emotional Support—Is It Good News or Bad? JAMA. 2026. Acessar publicação no JAMA
Brasil. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Secretaria Nacional de Direitos Digitais. Nota Técnica nº 47/2026/DSPRAD-SEDIGI/SEDIGI/MJ, sobre riscos e danos associados à exposição de crianças e adolescentes aos AI Companions.


